Entrevistados
Cinco Minutos com Dona Olga
O Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu, assim como tantos outros maracatus de Pernambuco, tem uma enorme dificuldade em precisar sua data de fundação. Sabe-se que desde o início da colonização, em Itamaracá e Igarassu, praticavam-se os ritmos e danças nagôs, passados de pai para filho e cantados nos rituais de candomblé pelos negros escravos.
Em pesquisas realizadas através de documentos nas igrejas da região, tem-se a informação de que em 1730, data a existência do que pode ser hoje o Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu, fazendo-se o mais antigo de todo Brasil. Como contava a antiga matriarca do folguedo, Dona Mariú (falecida em 2003 aos quase 105 anos de idade) a partir de 1824 é que o maracatu passou para os pais, sendo posteriormente repassado para si e para o seu marido, Sr. Neusa, mestre da Nação.
Dona Mariú passou por todo o século XX ouvindo as loas cantadas pelos seus pais no maracatu que posteriormente herdaria, passando décadas sob seus cuidados e os cuidados de Dona Emília (a boneca ou calunga). Hoje, a matriarca do Estrela Brilhante de Igarassu é Dona Olga, filha de Dona Mariú, mãe da antiga e acolhedora Nação. Com seu filho e Mestre Gilmar, Dona Olga divide as responsabilidades de manter a tradição. Maracatu é muito mais que tradição cultural, é compromisso ancestral. Quando os batuqueiros de um Maracatu Nação entoam uma loa, não são apenas as suas vozes que ouvimos clamar, mas as de todos os seus ancestrais que bradam um grito de resistência em forma de arte. Dona Mariú faleceu aos 104 anos de idade e com ela levou grande parte da musicalidade e da história da Nação do Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu. Contudo, ficaram seus filhos e, com Dona Olga, que canta e nos encanta com um dos mais fortes ritmos pernambucanos.
Texto retirado do Myspace da Nação. Acompanhe abaixo entrevista de Dona Olga, cedida ao Portal Raiz, da Revista Raiz em 2009.
Revista Raiz: Qual é o segredo da longevidade do Estrela Brilhante?
Dona Olga: O segredo que o Maracatu Estrela Brilhante de Igarassú guarda para se manter vivo e ativo é a participação da comunidade de Igarassú. Nosso maracatu é hoje é um dos poucos que tem participação de pessoas que vem de fora, preservamos nossa brincadeira desde quando foi criado em 1824. Do mesmo modo que meu pai passou pra mim e do mesmo modo com que meu avô passou para ele, assim o maracatu continua vivo. Contamos hoje com a ajuda do Ministério da Cultura, governo do Estado de Pernambuco e a Prefeitura de Igarassú nos dá sempre uma ajuda.
RR: Como o MEBI tem se reciclado nessa vida centenária com grandes mudanças no setor do Entretenimento e Música, principalmente com o advento da Internet? Vocês acabaram de lançar o site junto com o projeto do CD? E em 3 línguas (inglês, espanhol e português), definitivamente vocês querem o mundo?
DO: O maracatu Estrela Brilhante de Igarassú não sofreu qualquer mudança, continua sendo do mesmo jeito que meus avós faziam. Em nosso maracatu mulher não toca e homem não dança, como no tempo dos escravos. Nossos instrumentos são feitos da mesma forma com que os escravos faziam. Hoje tem em Recife muitos maracatus e todos eles mudaram a forma de tocar, as roupas,o que tem tornado o maracatu mais estilizado. Não temos nada contra isso, cada um faz o que quer com seu maracatu, mas o nosso vai continuar sendo preservado, pois é isso que queremos.
A história do site surgiu no momento em que o maracatu foi contemplado como Ponto de Cultura. Queríamos um espaço para divulgar nossos trabalhos, divulgar a comunidade e a cidade de Igarassú e principalmente divulgar o maracatu mais antigo do Brasil. O objetivo do site não é querer o mundo e sim mostrar para o mundo que estamos aqui e queremos ser vistos e respeitados. Quem vive na cultura popular sempre foi muito reprimido, ainda mais nós que somos descendentes de escravos e que temos no candomblé nossa base religiosa.
RR: O fato de vocês se tornarem um Ponto de Cultura tem ajudado efetivamente às atividades da agremiação?
DO: Tem ajudado muito. Com o Ponto de Cultura podemos devolver para a comunidade,tudo aquilo que nos deram durante séculos. Hoje estamos trabalhando mais próximos da comunidade, estamos ouvindo o que ela tem a nos dizer e estamos desenvolvendo junto à comunidade outros projetos. Com o Ponto de Cultura estamos difundindo a nossa cultura e a de outros artistas de nossa região. Contamos hoje com a presença de 250 pessoas que nos procuram para participar de nossas oficinas, contamos com o intercâmbio de grupos locais, que nos procuram para fazer seus registros de áudio.
RR: Quantos participantes ativos têm a agremiação? O que o MEBI pretende realizar para ampliar e reciclar seus associados?
DO: O Maracatu hoje conta com a participação de 120 pessoas, que são divididos entre batuqueiros e baianas. Já temos hoje jovens e adultos que se formam em nossas oficinas de percussão e dança , que já brincam no maracatu e a idéia é ampliar esse número lembrando sempre de valorizar aqueles que sempre estiveram presentes com a gente.
RR: Como andam as finanças e a estrutura da agremiação para suportar todas as suas atividades?
DO: Como toda e qualquer manifestação popular, o Maracatu sempre sofreu e sofre com a questão financeira. Por ser o mais antigo e por ser o único que ainda traz a mesma característica e forma com que se brincava o maracatu, devíamos ser mais valorizados, não só no sentido do cachê de apresentações, mas no sentido da preservação do próprio maracatu. Temos duras críticas ao governo do Estado nesse sentido, achamos um grande absurdo ser o maracatu mais antigo do Brasil e ainda não sermos um Patrimônio Vivo. O maracatu só sobrevive nos dias de hoje porque lutamos para colocar ele na rua e é com essa força que o Estrela Brilhante de Igarassú se mantém vivo e vai viver por muitos anos.
Quanto a estrutura da agremiação, hoje estamos muito bem estruturados no sentido de escrever projetos, participar de editais. Contamos com a ajuda de um produtor, que vem nos repassando seus conhecimentos para que nós mesmos façamos esse trabalho no futuro.
RR: E o carnaval, esse momento emblemático para os Maracatus, como se deu a participação do MEBI no evento? O que temos que mudar para melhorar no carnaval?
DO: O carnaval do ano de 2009 sofreu algumas mudanças no sentido do número de apresentações feitas na cidade de Recife, até mesmo porque tivemos mudança de gestão, então diminui o número de apresentações por parte das agremiações. Mas esse carnaval foi muito bom para o Maracatu Estrela Brilhante de Igarassú, pois conseguimos nos apresentar em Pólos do Governo do Estado, coisa que nunca conseguimos em outros carnavais. Esse ano nos apresentamos também na Casa da Cultura em Recife junto com outros Pontos de Cultura de Pernambuco. Foi um momento importante para o maracatu, e também, fomos homenageados no carnaval da cidade de Igarassú.
Como muitos sabem não participamos do concurso de agremiações promovido pela cidade de Recife, pois entendemos que maracatu não é disputa e sim cada um mostrar sua beleza, não queremos e nem devemos ser uma escola de samba. A disputa gera briga e violência e maracatu não é isso, maracatu é beleza, é religião e principalmente é o amor a brincadeira.
Para melhorar o carnaval os governantes deveriam olhar mais para as agremiações, prestar melhor assistência, pagar um cachê mais digno e honesto aos grupos, creio que com isso o carnaval vai melhorar muito. Observamos no carnaval daqui de Pernambuco que eles pagam um cachê enorme para artistas que nem daqui são e pagam uma miséria para as agremiações e ainda acham que cobramos caro. Ai fico sem entender se realmente meu maracatu tem alguma importância para quem governa nosso País e nosso Estado. Mas na atual gestão do nosso governo estamos encontrando facilidade para trabalhar, as portas estão se abrindo cada vez mais e, é importante lembrar, que nossa briga não é só nossa e sim de todos os grupos, que como nós sofrem para fazer cultura popular.
São Paulo vai ao Recife buscar o maracatu
Quando a inspiração está a 2,6 mil quilômetros de distância, o jeito é ir até lá. É o que fazem todos os anos músicos que reproduzem em São Paulo o melhor do maracatu pernambucano. E como a época ideal para isso é o carnaval, eles passam um mês ou mais no Recife e em outras cidades do Estado pesquisando e colaborando com nações de maracatu de baque virado – grupos tradicionais que preservam, desde o século 19, a manifestação cultural ligada ao candomblé.
O interesse não surgiu do nada. Ainda que as primeiras nações sejam bastante antigas, foi a explosão do movimento Mangue Beat, nos anos 1990, que difundiu o ritmo e influenciou a formação de grupos em todo o País. “Todo batuqueiro que se preze tem de ir ao menos uma vez na vida ao Recife. É como a Meca para quem toca maracatu”, diz o percussionista Maurici Brasil, diretor artístico da Cia. de Artes do Baque Bolado.
Criado em 1996, o grupo surgiu de uma brincadeira entre amigos que nem sabiam bem o que era maracatu. Com o tempo, eles se aprimoraram e decidiram incorporar dança, teatro e outros ritmos populares, como a umbigada. O grupo ensaia duas vezes por semana e promove oficinas às quintas, no Bom Retiro, no centro de São Paulo.
Enquanto alguns músicos do Baque Bolado e outros grupos conheciam de perto o maracatu pernambucano, quem não tinha dinheiro para viajar decidiu criar o Maracaduros, arrastão que desfila na Vila Madalena, zona oeste, há 12 anos, sempre na segunda-feira de carnaval. “É um acontecimento totalmente anárquico. Não tem ensaio, cada um chega com um instrumento, alguém apita e vamos embora”, descreve Brasil. Segundo ele, o batuque reúne 50 músicos e 3 mil foliões, com apenas uma regra: os batuqueiros têm de se vestir de mulher, “nem que seja apenas com batom e presilha no cabelo”.
Outro jeito de conhecer melhor o ritmo em São Paulo é participar das oficinas promovidas por mestres batuqueiros de Pernambuco. “Os grupos daqui fazem parceria para pagar a passagem deles e dar uma ajuda de custo”, explica Lelo Morais, produtor do grupo Ilê Aláfia. Os músicos também se juntaram para criar o site www.maracatu.org.br, com informações sobre seus grupos e a história do ritmo.
Fundado em 1999 na Associação Cristã de Moços (ACM), no Jabaquara, zona sul, o Ilê reúne 80 pessoas, de crianças a idosos, e tenta reproduzir a formação tradicional da nação, com a corte real, ala de baianas e alas de percussão jovem e mirim. Até o nome é ligado à cultura negra – na língua iorubá, Ilê Aláfia significa “casa da felicidade”. “Só não praticamos os rituais religiosos”, diz Morais.
A Cia. Caracaxá, criada em 2003, procura fazer a releitura do ritmo. Os fundadores viajam há mais de 10 anos para o Recife, mas o trabalho não se resume a tocar no carnaval. Os músicos levam material para fantasias e ajudam a construir e afinar instrumentos típicos de percussão, como a alfaia.
“Além de aprender coisas novas, damos um retorno sobre o trabalho que fazemos em São Paulo”, diz Henrique Barros, um dos fundadores, que desde janeiro está tocando e trabalhando no Maracatu Nação Porto Rico, no Recife. Os ensaios da Caracaxá ocorrem às quintas na raia olímpica da USP.
Já o grupo Bloco de Pedra (foto) surgiu em 2005, a partir de uma oficina de percussão que originou o projeto Calo na Mão, totalmente voltado ao maracatu de baque-virado. O projeto engloba ensaios do Bloco e oficinas de construção de instrumentos e introdução ao ritmo. “Vimos ali a oportunidade de fazer um projeto bacana, que envolvesse a comunidade com a cultura popular”, diz Luiz Gustavo Silviano, fundador e coordenador.
Frequentador do carnaval pernambucano, onde tocou por anos na nação Estrela Brilhante de Igarassu, Silviano acha importante aproveitar a abertura proporcionada por eles a quem vem de fora. “É um ritmo sobre o qual não há muito registro. Faltam lugares para pesquisar e estudar, então nada melhor que conversar com quem vive essa história lá.”
Os ensaios do Bloco de Pedra e oficinas gratuitas ocorrem aos sábados, às 15h, em Pinheiros, e chegam a reunir mil pessoas.
Por Ana Bizzotto – O Estado de S. Paulo

