Caboclo de Lança

Por Virginia Barbosa

Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

O caboclo de lança é personagem do Maracatu Rural ou de Baque Solto – também conhecido como Maracatu de Orquestra. A origem desse maracatu ainda não está totalmente desvendada. Uma parte dos pesquisadores é unânime em admitir a mistura das culturas afro-indígenas; outra, como resultado de manifestações populares – cambinadas, bumba-meu-boi, cavalo-marinho, coroação dos reis negros, caboclinhos, folia de Reis – existentes no interior de Pernambuco. É formado por personagens “sujos” – Mateus, Catirina, burrinha, babau, caçador –, um baianal, damas de buquê, dama do paço, calungas, caboclos de penas e de lança, e orquestra (caixa, surdo, gongué, cuíca ou porca, trombone e piston).

Até a década de 1920, os caboclos de lança, na sua maioria trabalhadores das lavouras de cana de açúcar, não despertavam tanto interesse nem fascinavam as pessoas, pois viviam e desfilavam nas cidades interioranas de Pernambuco. Na década de 1930, a decadência dos engenhos bangüês, o crescimento da indústria e a modernização da economia, resultante da Revolução de 1930, acentuaram o deslocamento do povo do campo para as cidades e o litoral. Com aquele povo, chegaram ao Recife as ricas tradições da Zona da Mata canavieira, inclusive e especialmente no carnaval, o maracatu rural e seus personagens.

O ritual que antecede a apresentação do caboclo de lança, quer no interior quer na cidade, envolve cerimônias que acontecem em terreiros, como a benção das lanças e da flor que carregam na boca, a consagração da Calunga (boneca representando a divindade, levada pela baiana), e a abstinência sexual dos homens, que começa alguns dias antes do carnaval. Bonald Neto (1991, p. 284) transcreve informações retiradas da entrevista realizada por Evandro Rabello com o caboclo de lança, Severino Ramos da Silva, de Goiana, que explica:

[...] os caboclos saem protegidos tanto pela “guiada” (a longa lança de madeira) [...] como pelo “calço” espiritual [...]. É o ritual da purificação [...] que apóia o caboclo disposto a sair num Carnaval. [...]

Por isso, antes de sair já na 6ª feira, começa a abstinência que faz o Caboclo, até a 4ª feira de Cinzas, não mais procurar mulher, nem tomar banho ”para não abrir o corpo”, obrigando-o a dormir mesmo sujo como veio da rua.

Na hora que vão sair no primeiro dia todos vão para a “mesa”. O Mestre faz um preparo que se bebe com uma flor dentro do copo e mais três pingos de vela santa.

Aí então o Mestre autoriza a saída do caboclo. Muitos saem com um cravo branco ou rosa na boca ou no chapéu para “defesa”, para fechar o corpo [...].

[...] a “rua” é sempre o exterior perigoso e repleto de riscos ocultos. Quem anda pelo “meio da rua” precisa estar “preparado” e protegido de todo o mal. Por isso os caboclos  tomam o “azougue”  [violento coquetel de pólvora, azeite e aguardente], preparado pelo Mestre. [...]

Ao voltarem, na quarta-feira, vão logo à Igreja tomar Cinzas e “se despedirem” de alguma coisa errada feita no Carnaval.

A roupa do caboclo de lança é um destaque. Ela é composta de:

  • chapéu – antigamente, os caboclos traziam o ‘funil’  de papelão decorado. Atualmente, utilizam chapéu de palha ornado de fitas multicoloridas de papel celofane, onde predomina a cor do “guia” (amarelo: Oxum; azul: Iansã; vermelho: Xangô)
  • lenço – colorido, amarrado na cabeça e, costurado nele, o chapéu de palha;
  • rosto –  a face é pintada com tinta vermelha, geralmente urucum.
  • gola – há registro de que, na década de 1920, as golas eram aparato secundário, curtas,  enfeitadas com areia prateada, pedaços de vidro e, por isso, pesavam muito. Na década de 1960, com a chegada da lantejoula, bem mais leve e barata, as golas cobriram o peito, os ombros e as costas e desceram até as nádegas, por cima do surrão. Feita de algodão ou veludo colorido, é forrada de chita ou popeline e bordada com lantejoulas e miçangas; na borda, coloca-se uma franja feita de lã. A gola é o destaque maior da fantasia. Inclusive, a sua confecção sempre foi feita pelos homens que compõem o maracatu rural, embora, atualmente, já tenha mulher bordando gola. É o caso de Lúcia da Silva, esposa do caboclo Zé do Carro, do Maracatu Cambinda Brasileira, que furou o bloqueio e impôs seu trabalho;
  • camisa – de mangas compridas, estampada com cores vivas;
  • ceroulão – calça de chitão;
  • fofa – calça frouxa com franja, usada por cima do ceroulão; segundo Bonald Neto (1991, p. 288), fofa era o nome das meias: “[...] as calças de chita, com elásticos nas pernas, fazendo perneiras que entram pelas meias listradas, a que chamam a ‘fofa’, espécie de meião de goleiro [...];
  • meião – usado para não ralar os joelhos quando executam as “caídas”, ajoelhando-se ou deitando-se;
  • surrão – “a armação dos chocalhos, geralmente de madeira e coberto de pele de carneiro, fortemente seguros por alças de couro pelos ombros e pela cintura” que pesa até 15 k. Atualmente, a armação é coberta de lã de cor viva e possui uma bolsa confeccionada de pelúcia sintética, imitando o couro de carneiro; o surrão abriga, na altura das nádegas, um número variável, sempre ímpar, de chocalhos, para não trazer azar;
  • sapatos – tênis brancos macios para aguentar a caminhada durante os três dias de carnaval;
  • lança – a “guiada” tem dois metros, é feita de madeira imbiriba ou de quiri, cortada por eles mesmos na mata, assada e enterrada na lama por quatro a cinco dias para endurecer; depois é descascada e afilada na ponta de quatro quinas, antes de ser toda enfeitada por dezenas de metros de fitas coloridas, com  cerca de 60 centímetros; depois, são levadas a um terreiro de umbanda para serem ‘calçadas’ (consagradas, batizadas com rezas e defumadores);
  • óculos escuros e cravo branco na boca.

Um espetáculo à parte é a dança dos caboclos de lança quando de sua apresentação: a coreografia tem um ritual frenético, eles correm de um lado para o outro, agitam suas lanças e executam manobras chamadas de ‘caídas’.

Chegam curvando-se, erguendo-se e pulando o mais alto possível (GUERRA PEIXE apud SOUTO MAIOR (1991, p. 286)).

A lança, segura com as duas mãos, ‘brinca’ para o alto, para baixo e para os lados, afastando as multidões, enquanto o caboclo vem correndo, saltando e dançando… a cabeleira de tiras de celofane ou papel crepon multicolorida se abaixa e se levanta (REAL apud SOUTO MAIOR (1991, p. 286)).

Símbolos do carnaval de Pernambuco, os caboclos de lança podem ser encontrados no período momesco nas seguintes cidades: Igarassu, Nazaré da Mata, Buenos Aires, Tracunhaém, Carpina, Chã de Alegria, Lagoa de Itaenga, Feira Nova, Araçoiaba, Paudalho, Camaragibe e São Lourenço da Mata.

Dessas cidades, Nazaré da Mata, a sessenta e cinco quilômetros do Recife, é a que concentra cerca de vinte grupos de maracatu rural. Entre eles, o mais antigo é o Cambinda Brasileira, fundado em 1918 no Engenho Cumbe. O Leão Formoso é o segundo mais antigo (1980). Na década de 1990 foram criados: Águia Misteriosa, Leão Misterioso, Leão de Ouro, Cambinda Nova, Leão da Selva e Leão Africano. Em 2009, surgiu na cidade o Coração Nazareno, o primeiro maracatu rural do País formado só de mulheres.

Nazaré é considerada a Cidade dos Maracatus e, por isso, o governo do estado investiu na construção de uma peça temática, batizada de Parque dos Lanceiros, localizada logo na entrada da cidade. São esculturas de concreto do artista plástico recifense Cavani Rosas, com 3 metros de altura que reproduz os caboclos de lança nas posições clássicas de sua apresentação.

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